“Fame is but a fruit tree/So very unsound/It can never flourish/Till its stalk is in the ground.” (Nick Drake)
I’m here today and expected to stay on and on and on/I’m tired, I’m tired…/I’m never gonna know you know, but I’m gonna love you anyhow”. (Elliot Smith).
To die by your side, it’s such a lovely way to die” (Morrisey)
A capacidade de terminar com a própria vida é, provavelmente, o que nos diferencia dos outros animais – esqueça aquela estória do dedo opositor. Cada suicida se mata da maneira que acha mais confortável, adequada, ou esteticamente atraente, se for uma personalidade celebrada o suficiente para que isso fique registrado. Isso é importante: Anna Karênina imortalizou sua morte ao se jogar na frente de um trem. Dias desses, tive meu trem de metrô parado no Anhangabaú por longos dez minutos enquanto, com o trem parado e sem ventilação, o pessoal do metrô de fora se mobilizava para retirar o pecador mortal de debaixo das engrenagens. Alguns passageiros sapateavam o metrô, estaria o coitado por ali, embaixo de nós? Foi trágico, me lembro: suei muito com a falta de ventilação e cheguei atrasado dez minutos na Sé, e vocês sabem o que isso significa. Trânsito, luta pra sair dos metrôs, gente suada se amassando – aquele dia me traumatizou de tal forma que o cansaço causado pelo contato físico indesejado com uma gorda suada e um japonês uspiano foi tão grande que fui obrigado a dormir a tarde inteira em casa, para me repor psicologicamente. E não adianta mentalmente mandar o suicida para o inferno por conta dos danos que causa a gente decente que, como eu, honestamente deixa São Paulo me matar gradualmente ao invés de atrasar todo mundo, uma vez que, por definição, ele escolheu ir para lá right away e a praga fica então redundante.
Suicidas: uma tendência do mercado. As pessoas querem morrer, viver é algo meio sujinho e muito trabalhoso, nada da pureza do bom selvagem no meio do mato, as drogas dos hippies que lhes criavam amor à vida saíram do mercado e o mercado, por sua vez, exige banhos regulares de seus executivos – os chefes substituíram os pais americanos puritanos que sustentavam a flower age. Aliás, os pais, como fonte de patrocínio de idéias revolucionárias de seus filhos, também estão em extinção. Sumiram os acampamentos, surgiram as business schools.
Há vários tipos de suicidas, conscientes ou não, dependendo das tendências genéticas e das circunstâncias cotidianas. Ousaria dizer que os hábitos de audição musical podem ter influência maléfica nisso. Alguns ouvem musica pop melancólica que os tornam propensos a auto-destruição, outros trabalham em lojas de departamentos cuja constante audiência de músicas populares torna a morte uma alternativa promissora. Não achei um bar nem um amigo para desenvolver essa teoria com propriedade, então fica ela aqui como mera especulação nada científica, distinta da rigorosa análise psico-existencial que se segue. No outro parágrafo.
Urgência nessa necessidade de descartar-se da vida pode pedir a extinção imediata e violenta da própria carne. Armas de fogo são uma escolha constante (vide Kurt Bang Cobain), em especial para os homens. A destruição é súbita e indolor – mulheres preferem cortar os pulsos. A razão é óbvia: os homens suportam menos dor que as mulheres. Se for verdade que toda mulher no fundo gosta de apanhar, essa fantasia masoquista não se revela menos verdadeira na maneira pela qual a maioria das mulheres escolhem por fim à sua existência: deliciando-se com o gradual desfalecimento dos sentidos que vão, leitosamente, escorrendo de seus pulsos adolescentes fragmentados por Gilette de banheiro. Trágico, e very disgusting. A arma de fogo é muito mais honrosa – Gilette is for pussies.
Ian Curtis preferiu se enforcar. Embora mais discreto, é mais chocante; imagina a mãe do Ian entrando no quarto, vendo aquele pé roxeado, ela que provavelmente nunca o deixava andar descalço naquele piso frio, resfriado, pode ficar doente, veja só, menino mimado que desafia a autoridade materna com pirraça até na morte planejada – é óbvio que tem a ver com a mãe, deve ser um problema freudiano-edipiano com toques do capeta. Não é preciso dizer que Ian era filho único.
Pãozinhos são perigosos para aqueles que vivem comendo e bebendo como se não houvesse amanhã: pessoas deveras atiradas aos excessos hedonistas são suicidas dolosos. Suicidas passivos, até. Veja a Mamma do The Mammas and the Pappas. Morte ridícula, engasgando com pãozinho, só gente gorda pode morrer assim, uma vez que comida costuma ser seu vício favorito dessa gente. Algo parecido com isso é comum no roque, mas com vícios diversos. John Bonham, notório beberrão, morreu engasgado com bolinhos de presunto – embora 40 doses de vodka que antecederam os bolinhos, como repasto líquido, possam ter tido sua contribuição.
Pervertidos que gostam de sofrer de maneira sistemática – e não me refiro àqueles que casam com a parceira para depois realizar as perversões inomináveis, pois que esse masoquismo é mais comum e plenamente aceito e incentivado na sociedade (casamento é o nome, se não me engano) – mas sim aos que fazem a ainda namorada repetir uma sacanagem perigosa que envolva pregos, cordas ou correia, por exemplo. São coisas perigosas de se lidar, sabe, e as maiorias dos indivíduos que mexem com isso no fundo sabem disso, portanto são potenciais suicidas dolosos, se insistem na ânsia pelo prazer heterodoxo com tais brinquedos matreiros. Há o caso do vocalista do INXS, que eu imaginava ter se matado por motivos mais cotidianescos tais como o vazio da fama frente à condição humana, a náusea da existência, a insuficiência e decepção da riqueza material, a inquietude da mortalidade, etc.
Ouvi de um amigo que a tara do moço era asfixia: ele foi encontrado morto numa de suas experiências de masturbação, em que ele simulava enforcar-se solitário na fechadura da porta até um limiar controlado para incrementar a excitação da coisa, e ali ficava brincando fogo – ou melhor, com corda. Abjeta essa desvirtuação de um milenar e nobre hobby que aprendemos na adolescência para matar aquele tempo que a mãe proibia videogame e nos mandava brincar lá fora.
Quem conhece a sensação da ejaculação masculina, homens que se interessam suficiente por isso para brincarem sozinhos ou acompanhados, ou aqueles que gostam de testar pra ver se está tudo no lugar e funcional (estão excluídos os estudantes de Física, que brincam com o Universo, e homossexuais passivos, que brincam com outra coisa), bom, a turma sabe que controle é algo que a gente perde, bem no exato momento em que o negócio fica bom. Daí pra esquecer-se de não morrer asfixiado com o excesso de aperto do laço no pescoço é um pulo. Surpreendo-me com a ingenuidade dos roquestares às vezes. Bom, a banda era muito ruim – australiana, ainda por cima, acho. Assim como o glamour da morte de Ian Curtis combina bem com o tom do Joy Division, uma banda brega autraliana dos anos 1980 só pode encontrar nesse fim embaraçoso o fim legítimo e similar do seu vocalista – quem não se embaraça com o fim dos anos 1980, e mais ainda, com bandas que imitam mal uma banda tão horrível quanto o U2?
Não parece haver expectativas de que Bono Vox vá cometer suicídio num futuro próximo; a banda prefere seguir decepcionando o segmento do roque com discursos pacificistas e/ou em defesa da paz mundial, das plantas e coisas do gênero, o que promete músicas cada vez mais ruins. Eu poderia dizer que eles praticam suicídio musical gradual, se algo de vital houvesse em algo que eles houvessem composto algum dia.
Não deixa de ser engraçado pensar que John Lennon foi assassinado por um fã: tantos artistas famosos por aí – o que implica milhares de fãs para cada, tal qual os que tinha John e, pela lei dos grandes números, um tão enorme percentual de assassinos entre essa multidão dos outros artistas ruins… E o que acontece no final? Só John Lennon morreu, inúmeros e insuportáveis astros pop permanecem. Depois de Lennon, matar seu artista favorito é bad form? Injusto. Por exemplo, legiões crescentes de fãs dos artistas de relevância nacional na formação de opinião no Brasil – os participantes de reality shows BBB – poderiam ter recepções, senão com uma bala, mas com um bolo de admiração enlouquecida na cara.
Suicídio, se você pensar na palavra com o sentido de evitar a vida, pode tomar formas mais sutis do que a simples abdicação da circulação biológica de vitalidade. Com a internet e sistemas delivery plenamente desenvolvidos em grandes metrópoles, é possível evitar a vida, o que poderíamos chamar de um suicídio light, ou melhor, podemos criar um eufemismo para a coisa chamando-a de “retiro introspectivo” (o último dá uma peja artística a um costume geralmente meio nerd, a introspecção, por isso gosto mais dele). Alcoólatras de rua há séculos praticam o suicídio gradual explícito; alcoólatras de alcova há séculos praticam o suicídio gradual implícito.
Elliot Smith também resolveu sair de cena antes do sucesso – como Nick Drake. O interessante é que o legado musical deles é um convite a seguir o mesmo caminho – ouçam.
Bom, os gênios encontraram seu meio de, ao fim e ao cabo, evitar viver. Eu não tenho revolver, cordas me metem medo, visões de sangue me faz evitar cenas mais fortes de House (me embrulham o estômago), e no fim e eu acho que morrer é um tanto desconfortável. Excetuando-se algumas ocasiões onde alguns idosos morrem com um sorriso nos lábios – aqueles que são encontrados com uma acompanhante 40 anos mais jovem e um saquinho de pó do lado (o baixista do Who, especula-se, encontrava-se em tal situação quando morreu num cassino), bom, com exceção dessa curiosa parcela de pessoas que morrem bem acompanhadas e, talvez pela satisfação que a companhia lhes proporciona, lhes calham morrer com um sorriso inquietantemente e eterno nos lábios, a maioria, que não tem tanta sorte ou fama ou dinheiro – quem freqüenta velórios de desconhecidos pode testificar – parecem ter não gostado da experiência, até onde a matéria elástica da face persistiu para imprimir na fronte promíscua do morto feliz sua última impressão. O que me faz deduzir que morrer sem uma jovem auxiliar de morte do lado dói, não é gostoso, assusta, enfim, causa desconforto.
Por isso, caso a vida se torne por demais desinteressante, tenho soluções alternativas para evitar a vida de facto: o mundo da fantasia. Bebidas entorpecedoras estão aí para sufocar eventuais traumas – mas veja, se forem um daqueles vazios existenciais, náuseas intelectuais etc, então, é mais fácil ainda, nem precisam entorpecentes, porque isso é fruto de falta do que fazer – bom, minha idéia é que um suplemento adequado de comida, isolamento e computador com internet pode lhe auxiliar a deixar sua própria vida e acompanhar aquelas engenhosamente criadas por roteiristas de séries, compositores de músicas, com a contribuição dos destiladores de cachaça. Isolamento apropriado, internet e computador – essa é a minha sugestão para o suicídio politicamente correto. A observação de que esse comportamento está se tornando comum nos dias atuais me faz pensar que, embora original e brilhante meu enunciado da minha idéia de suicídio politicamente correto – não é meu primeiro insight desse nível, mind you – ele não precisa ser pregado ou ensinado. É um sinal dos novos tempos, talvez de natureza bíblica. Os executivos do Apocalipse (referência culta à Bíblia, e não aos funcionários da empresa Apocalipse, bem entendido) poderão pegar, decepcionados, inúmeros pecadores já destruídos nos seus lares, cheio de pecados imaginários, já destituídos de vida. A besta, evidentemente, deverá ter que se atualizar das novas mídias de comunicação e comportamento e entrar logo na era da internet – dominá-la seria o ideal. Que a Besta não seja besta – o canal é a world wide web.
Postado por: Marcos Rocha
